September 2007

Em face dos últimos acontecimentos, sejamos drummondianos

dossie-drummond.jpg

Adoro biografias, menos as declaradamente laudatórias. Essa semana passei os olhos numa nova edicação do “Dossiê Drummond”, do Geneton Moraes Neto e pensei que um dia iria ler o livro, mas reavaliei, vou ler ele agora! Num impulso peguei o livro e voltei para casa com ele.

Termino o final de semana com ele lido do início ao fim, uma maravilha. Não é propriamente uma biografia, mas um retrato de sete faces do poeta mais querido do Brasil. Depoimentos de amigos, da namorada com quem teve um caso extra-conjugal por 36 anos. Engraçado ver o chefe de gabinete do então ministro da educação sendo criticado pelos jornais por aconselhar os jovens a serem pornográficos.
Certamente, esse papo de “maior poeta” é de uma babaquice que Drummond não merece, mas nenhum outro representou tanto esse papel social do poeta nacional como ele. Não por vocação, mas por aclamação dos amigos e leitores.

    Em face dos últimos acontecimentos

Carlos Drummond de Andrade

Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?

Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.

A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).

Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.

Propõe isso ao teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?

Leituras vagabundas

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Canção Bêbada

Dante Milano
cp_1931_milano.jpg

Estou bêbedo de tristeza,
De doçura, de incerteza,
Estou bêbedo de ilusão,
Estou bêbedo, estou bêbedo,
Bêbedo de cair no chão.

Os que me virem caído
Pensarão que estou ferido.
Alguém dirá: “Foi suicídio!”
“É um bêbedo!” outros dirão.

E ficarei estirado,
Bêbedo, desfigurado.

Talvez eu seja arrastado
Pelas ruas, empurrado,
Jogado numa prisão.

Ninguém perdoa o meu sonho,
Riem da minha tristeza,

Bêbedo, bêbedo, bêbedo,

Em mim, humilhada a glória,
Escarnecida a poesia,

Rasgado o sonho, a ilusão
Sumindo, a emoção doendo.

E ficarei atirado,
Bêbedo, desfigurado.

Perambulações

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Geografia íntima do deserto

brasilia.jpg
Micheliny Verunschk

I - O corpo amoroso do deserto

Teu corpo
branco e morno
(que eu deveria dizer sereno)
é para mim suave e doloroso
como as areias cortantes
dos desertos.

Que importa
que ignores minha sede
se tua miragem
é água cristalina?

E a miragem
eu firo com mil línguas
e cada uma
é um pássaro a bebê-la.

Ferroam minha pele
escorpiões de sol
com seu veneno
e vejo,
magoada de desejo
os grãos tão leves
indo embora ao vento.

II - A presença dolorosa do deserto

Teu nome
é meu deserto
e posso senti-lo
incrustado
no meu próprio
território
como uma pérola
ou um gesto no vazio
como o amargo azul
e tudo quanto
há de ilusório.
Teu nome
é meu deserto
e ele é tão vasto,
seus dentes tão agudos,
seus sóis raivosos
e suas letras
(setas de ouro e prata
dos meus lábios)
são meu terço
de mistérios dolorosos.

Sexta-Feira Poesia

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