Agradeço a todos os amigos as palavras de apreço e consideração pelos primeiros passos desse blog caminhante… Celso foi além e me mandou o link para o simplesmente fantástico Udigrudi Recife. Nele se encontra a nata da nata das primeiras bandas de rock pernambucanas, surgidas no final dos anos 60 e início dos 70. Alguns permanecem em atividade ainda hoje como Alceu, Lula Côrtes, Zé da Flauta, Paulo Rafael e Zaldo, mas outras povoavam o meu imaginário e nunca tinha escultado como Ave Sangria e Aratanha Azul.
A Internet é maravilhosa e, ao mesmo tempo, desgraçada. Em poucos cliques estava escutando o som progressivo de Zaldo, João Maurício e Thales no Aratanha Azul. É tanta facilidade que até perde um pouco da aura da descoberta. Fiquei viajando nisso, pensando como à 20 anos atrás rodava pelas ruas do Recife atrás das lojas de discos usados. Eram verdadeiros esconderijos, coisa para iniciados!
Os melhores eram a Banca do Elvis, Humberto Som e a Disco 7. Essa última era profissional, LP’s bem conservados, local de bom acesso e estrategicamente localizada ao lado da Livro 7 e da lanchonete, que não lembro nome, que tinha a melhor fatia de pizza de toda Rua 7 de Setembro. Os donos da Disco 7, Leão e o “Gordo” tinha a maior paciência comigo. Ia lá uma centena de vezes apenas para namorar os discos, acho que cheguei ao ponto de conhecer mais o acervo do eles, sabia a até a ordem dos discos. O que tinha e o que não tinha. Quando pintava uma grana extra, estava lá comprando um disquinho. A maior compra foi, sem dúvida alguma, o LP duplo de Hermeto Paschoal Live in Montreaux, até hoje o meu disco preferido.

A Banca do Elvis era sensacional! Será que ainda existe? Em plena Rua do Imperador, dividindo a calçada com os pedintes da Capela Dourada. Ivan, o dono da banca, era/é fã de Elvis e Roberto e esnobava dizendo para todo mundo que tinha uma das maiores coleções de dois reis do rock do Recife. Sempre tive a impressão que ele desprezava os clientes que, como eu, chegavam lá perguntando por discos de bandas de rock pesado e progressivo. Eu também não tinha saco para Elvis e retribuia o desprezo silenciosamente.
Humberto Som é um caso à parte, por isso deixei para o final. A loja era uma portinha ao lado da casa dele, que ficava nos fundos de um casarão antigo, em vias de desabar, na Rua da Matriz, a rua que sai ao lado da igreja da Rua da Imperatriz até a Rua Velha. Pense uma bocada! Da primeira vez que fui lá, estava sozinho e fui seguindo orientações de Pedro. Pensei várias vezes antes de entrar, mas sabendo que ele tinha preciosidades e que vendia por um preço camarada, fui em frente.
Humberto era/é uma figura estranha. De cara, um hippie que parou no tempo. O papo dele era sobre o fim da Babilônia. Pense! Mas ficava lá cantando hinos evangélicos, por que ele era crente. Uma piração total. Os pais moravam com ele e de vez em quando via os velhinhos no terraço da casa, simpáticos.
Depois da estranheza inicial, minha loja preferida passou a ser Humberto mesmo. Ele sempre tinha discos de rock progressivo bons e raros. Fiz minha coleção do Emerson, Lake e Palmer quase toda lá. Menos o tripo ao vivo que só encontrei na Galeria do Rock em São Paulo.
Incontáveis vezes fiz o percurso entre essas três lojas. Todos os grandes amigos da época foram companhia e íamos quase sempre apenas para olhar os discos e bater papo sobre música. Sempre com uma parada para tomar um mate com limão ou um caldo de cana.
Sabíamos que alguns discos nunca íamos encontrar nas lojas do Recife, mas nem por isso deixávamos de procurar. Era uma garimpagem e cada disco novo uma grande descoberta. A Internet muda bastante a lógica da oferta e procura das raridades musicais, mas tenho certeza que nesse momento tem algum adolescente maluco procurando CD’s e DVD’s raros nas ruas das cidades.