Sexta-Feira Poesia

Chuva sobre o mundo II

Após mais de 120 dias, enfim, voltou a chover em Brasília. Estou há quatro anos na cidade e ainda não me acostumei com essa secura. Sempre falo que o primeiro semestre é o tempo de ser feliz em Brasília, no segundo semestre, resistimos.

A chuva foi muito bem vinda, até deu vontade de descer da sala onde trabalho para ir tomar um bom banho de chuva. Fiquei só na vontade.

A chuva metafórica do poema de Cardozo, nos remete à tempos sombrios. Tenho pensado muito nisso e como a “realidade” vista pela TV está ficando “realista” demais, a perseguição, caçada e abate de bandidos filmada e aplaudida. Dura demais essa realidade.

Tentaremos manter a paz e a alegria no coração para “Quando a luz surgir de novo, quando amanhecer, / E o primeiro sol nascer / Sobre o dilúvio”.

Braxília
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O Presente

Soube hoje pelos jornais de Recife que o poeta Alberto da Cunha Melo faleceu ontem. Lembrei logo dos amigos José Arnaldo e Celinha que eram amigos próximos de Cunha Melo. Recife é uma cidade em constante ebulição cultural, principalmente nas letras, cinema e música. Peço licença para que hoje, um domingo, seja uma Sexta-feira poesia!
alberto-da-cunha-melo.gif
Alberto da Cunha Melo (1942 - 2007)

O que hoje recebes
e não podes pegar, guardar
em panos e papéis laminados,
é imperecível,
presente onipresente.
Estás com ele na chuva
e não temes que se desfaça.
Estas com ele na multidão
e não o escondes dos multilados.
O que não existe para os homens
deles estará protegido,
o que os homens não vêem
não poderão espedaçar.
Eis o que não te denuncia
porque não tem face
nem volume para ser jogado no mar.
Eis o que é jovem a cada lembrança
porque não tem data
e série, para envelhecer.
O que hoje recebes
não pode ser devolvido.

Recifeliz
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Poemas aos Homens do nosso Tempo

hilda.jpg

Poemas aos Homens do nosso Tempo VIII
Hilda Hilst

Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua

Aquietá-los.

Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.

Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.

Raros? Teus preclaros amigos.

E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.

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Geografia íntima do deserto

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Micheliny Verunschk

I - O corpo amoroso do deserto

Teu corpo
branco e morno
(que eu deveria dizer sereno)
é para mim suave e doloroso
como as areias cortantes
dos desertos.

Que importa
que ignores minha sede
se tua miragem
é água cristalina?

E a miragem
eu firo com mil línguas
e cada uma
é um pássaro a bebê-la.

Ferroam minha pele
escorpiões de sol
com seu veneno
e vejo,
magoada de desejo
os grãos tão leves
indo embora ao vento.

II - A presença dolorosa do deserto

Teu nome
é meu deserto
e posso senti-lo
incrustado
no meu próprio
território
como uma pérola
ou um gesto no vazio
como o amargo azul
e tudo quanto
há de ilusório.
Teu nome
é meu deserto
e ele é tão vasto,
seus dentes tão agudos,
seus sóis raivosos
e suas letras
(setas de ouro e prata
dos meus lábios)
são meu terço
de mistérios dolorosos.

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MONUMENTO AO OXIGÊNIO

vaskopopa.jpg
Vasko Popa

um vinho rubro-terra me destina
a este país-braços-abertos
do coração do qual frondeja
a árvore da vida de olhos verdes

respira e assim anima
— exânime — uma estrela

me aterrorizam monumentos
grandes fantoches sobreerguidos
com frio e fogo e outras — invisíveis — armas

em parte alguma jubilou-me
um monumento ao oxigênio

todo armado de folhas
de flores e de frutos
e de outras verdades maduras

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